SÓ POR HOJE

Ei, vem cá. Não some não, não foge, não vai. Fica. Por hoje. Só por hoje, e aí eu te deixo ir do jeito que você quiser, desde que você prometa não olhar pra trás porque encarar teu olhar desviando do meu é demais e eu não vou aguentar. Deixa um pouco mais do teu cheiro no meu edredom, vê se esquece de propósito alguma blusa sua, garante a minha saudade num futuro próximo. O por do sol tá a coisa mais linda do mundo e você com o rosto afogado no meu pescoço é tudo que eu exijo, deixa ser outono, deixa o vento vir, deixa eu rir leve. A gente finge que é feliz por mais uma noite e depois eu lido com a realidade me espancando, mas hoje eu me permito. A tua risada de trilha sonora pra entrada da noite, teu olhar encontrando o meu, descompromissado, teu carinho e a ponta dos teus dedos percorrendo minha pele e arriscando um cafuné. Deixa eu te olhar sem censura.

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Mais tarde a gente abre um vinho tinto sem se preocupar com taças e colocamos algum acústico pra tocar. Eu fico te observando e te ouvindo falar com indignação sobre qualquer problema social, degustando teu senso de justiça e tua visão de empatia. Discutimos tudo que há, questionamos o que deve ser questionado e o silêncio recai numa troca de olhares intensa que a gente sempre acaba tendo em algum momento de qualquer diálogo. E aí eu finalmente te tenho, te toco, te beijo matando a vontade de todas essas semanas. Sai dessa calça jeans apertada e me aperta toda, me respira e me injeta como se essa fosse nossa última noite (e talvez seja mesmo). Faz poesia em mim com tua boca, deixa eu te ver perder teu fôlego e me leva junto pra qualquer outra dimensão.

Me abraça até o sol sair de novo pra te substituir e me aquecer, me olha em despedida e vai embora devagar pra eu poder te observar mais um pouquinho, já morrendo de vontade de te pedir pra voltar…

ESPER(ANDO)

Eu te enxergo, eu te vejo. Toda essa sua confusão, essa personalidade de fogo efêmero que se rende ao vento para reacender logo depois. Eu percebo a tua cabeça revirada, todas as suas marés influenciadas por uma lua de mil fases. Você tem umas cem camadas e todas elas possuem cores diferentes.

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Daqui de fora, consigo ver a sua bagunça, suas dúvidas sobre esse e outros mundos. Você toma decisões baseadas no que seu pensamento desordenado ordena em nome da dupla que somos sem me perguntar o que acho sobre: também tenho voz, mereço ser escutada, não? Não pense que me protege ao se afastar ou bloquear tudo que é, se permaneço é porque escolho estar aqui. Que mania estúpida de achar que sabe o que é melhor pra mim, que tem o direito de decidir o que me machuca e o que deixa de machucar. Te quero livre, vê se me liberta também. Até mesmo pra tomar as decisões que você, no fundo do seu instinto, desaprova.

Estou disposta a ir fundo, a conhecer seus demônios e seus medos, a ver a sua nudez crua sem me assustar com os efeitos colaterais. A minha vontade existe, mas a sua parte é necessária para que a gente saia da orla da praia e entre em alto mar. Tô te pedindo, meu bem, me deixa entrar. Me deixa ver a sua alma e suas dimensões, me deixa dançar nas suas incertezas, me deixa fazer parte da sua gaveta bagunçada. Tô na porta, tô te esperando. Vai me receber ou só falar pelo interfone?

QUERIDO DIÁRIO,

Às vezes eu sinto que preciso apenas de uma caneta e uma folha em branco. Apenas sentir a textura de ambos, a tinta se fixando no papel, meus rabiscos mal desenhados num espaço a ser preenchido por ideias que quase não consigo organizar.

Hoje às sete tudo desabou. De novo. Há algumas semanas tudo que havia era chuva e neblina aqui dentro enquanto o sol castigava lá fora. Eu me afogava no meu clima impiedoso, sem tempo pra respirar e sem vontade de fazer qualquer coisa que exigisse algo da pouca energia que eu mantinha. De tempos em tempos me sinto assim, sem perspectiva, meio nublada e tempestuosa, e com o passar desses anos aprendi a conviver com isso. Aprendi que, quando a tempestade chega, tudo que eu tenho que fazer é continuar de pé até ela passar. Eventualmente, acaba. Tudo acaba. Os dias de sol e os de chuva.

Nesses dias de tempestade, posso transmitir a mensagem de que quero ficar sozinha, mas isso é só uma tentativa de enganar a mim mesma. O que eu quero – e preciso – é que alguém fique por perto, em silêncio, vivendo a própria vida, mas por perto. Mostrando que está ali caso um vento forte ameace me derrubar. Só preciso de algo presencial. Real. Preciso de algo que desminta tudo que as vozes na minha cabeça gritam durante esses dias, de algo que me mostre a diferença entre o que existe e o que eu invento. Algo palpável e concreto.

Dói muito aqui dentro. É uma dor forte, intensa; parece que algo está comprimindo meu peito e minha garganta, quebrando minhas costelas devagar. Sinto tudo e nada ao mesmo tempo e o sufoco é quase insuportável. Por vezes, transbordo, o que de certa forma alivia, mas não o suficiente. Nada nunca é suficiente enquanto a chuva insiste em permanecer.

O mais curioso disso tudo é que, nessas épocas, não necessariamente deixo que isso transpareça. Rio, conto piadas, de vez em quando consigo até mesmo cantar alguma música alegre se estou entre pessoas que me fazem bem. Há dias em que a chuva fica em segundo plano por alguns minutos ou horas. Mas ela nunca me permite esquecer que ainda a tenho dentro de mim. Chovendo. Chovendo.

Sei que isto é uma condição de permanência, um demônio com o qual terei que conviver durante toda a minha vida. Em dias de sol, as vozes em minha mente são quietas. Se falam, apenas sussurram, de modo que até esqueço que elas existem. Mas elas sempre voltam para gritar quando a chuva retorna, e eu tenho que aguentá-las. Com um pouco de sorte, talvez eu consiga mantê-las silenciosas pela maior parte da minha existência.

A caneta e o papel são minha droga, o que anestesia meus cortes temporariamente. O papel me escuta, me acolhe, me entende. Como eu disse, não são suficientes, mas aliviam. Assim como o choro. O abraço. O silêncio presencial.

Hoje às sete tudo desabou de novo, Voltou a chover. Estou em pé, me molhando, esperando passar.

NADA

 

Esse mundo é grande, mas continua sendo pequeno demais. Talvez não deveria ser assim, mas as pessoas o tornam um lugar limitado, despreparado, cheio de regras e pontos finais. Esse mundo é cruel demais, cheio de desigualdade e miséria e fome e gente nas ruas, gente sem lar, gente perdendo a mente pelo caminho e gente fechando os olhos para o que tem e focando no que deixa de ter (tão pouco). Esse mundo é rápido demais, nossa existência é um sopro, efêmeros, e tudo aqui é construído pra desabar; quem consegue deixa uma marca mais permanente, uma cicatriz mais profunda, mas nunca eterna. Esse mundo é cheio de maldade e egoísmo, cheio de incompreensão e preconceito, esse mundo carece amor, empatia e entendimento. Respeito. Esse mundo é pequeno demais pra imensidão de algumas pessoas que transbordam e não nasceram pra estar aqui. Esse mundo é morno e não suporta a existência ardente de quem nasceu pra bater de frente, pra falar verdades que as pessoas não pedem pra escutar, mas que precisam ser faladas. O final disso tudo é mais complexo que paraíso e inferno e as pessoas brincam com a morte com descaso, não há diálogo, não há escapatória para o sofrimento que nos é imposto, ninguém pediu pra nascer. Afinal, isso tudo não é apenas uma piada cósmica? Sou uma partícula indiferente num universo de possibilidades. Sou nada num mundo em que todos acham que são tudo.