SEIS DA MANHÃ

Desde quando você chegou à minha vida, a segunda gaveta do meu criado mudo é uma bagunça constante, cheia de papéis amassados e poemas de amor com manchas de café. Meu corpo é um caos com marcas de insônia e sua presença dentro de mim é inegável, enorme e tensa. Você me causa convulsões e crises de ansiedade, minha saúde abalada pelos terremotos que você provoca… Aqui estou eu novamente com minha folha em branco e minha vontade de te ter, escrevendo mais um texto pra guardar naquela gaveta que já seu espaço por direito.

Não sei o que fazer nem como tratar o monstro que alimento e mantenho escondido nas minhas profundezas. Se é tudo um mal entendido ou uma interpretação mal feita, peço socorro e me culpo por pular de cabeça em algo que nunca sequer existiu. Quando mergulho, afogo-me sem ter vontade de voltar a respirar: gosto do sufoco, do limite e da sensação de falta de controle sobre mim mesma.

A dúvida me corrói por dentro e minhas veias queimam com a realidade impactante da manhã seguinte, a coragem da madrugada esvaiu-se e o espaço deixado é rapidamente ocupado por arrependimento, culpa ou desejo. Eu deveria ter falado mais, sorrido mais, deixado tudo fluir como deveria ser. Tudo que te envolve é complicado e difícil, um tornado de emoções que circulam em seus órgãos e explodem num olhar que resume toda sua existência.

A sobriedade é cruel e minha mente me tortura por não me permitir esquecer. Sei que estou sozinha nisso tudo, ninguém conseguiria entender: nem eu mesma compreendo o efeito que sua voz causa nas borboletas adormecidas no meu estômago. Me culpo por sonhar alto demais e por pensar tudo que penso no momento em que estou deitada no escuro sozinha com meu próprio ser, sendo obrigada a encarar quem realmente sou e o que realmente sinto, a admitir o que já sei.

Sento-me ao lado da verdade escancarada sem ter coragem de olhar diretamente para ela. Sou covarde, intensa, dramática e constantemente me canso de ser quem sou. Tudo o que posso fazer no meio disso é esperar que seja uma maré ruim, uma leva de ondas desfavoráveis que uma hora ou outra encontrarão o caminho de volta ao mar enquanto eu tento achar minha própria estrada.