MAIS UM DE ROMANCE

Estamos sentados lado a lado e a distância entre nós me incomoda tanto quanto um erro gramatical grave. Para mim, é isso que este espaço representa: um erro, preenchido por ar e algo mais, que paira misterioso e vivo, mas não sabemos dizer o que é.

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Todos na sala são e estão indiferentes, sem poder perceber a guerra que ocorre dentro do meu corpo, que tenta incansavelmente decifrar os sinais do seu. Quando seu joelho resvala em minha perna, sem querer, paro de escutar tudo ao meu redor e toda a minha atenção se concentra no calor momentâneo de sua perna contra a minha. Durante os segundos que passamos assim, flashes do que nunca aconteceu surgem na minha mente: suas mãos, seus lábios, seus cabelos desarrumados.

A atração que sinto por você chega a ser paranóica, obsessiva; te dou todos os motivos para fugir de mim. Luto contra os meus próprios pensamentos tentando te expulsar dali; declaro guerra a mim mesma, mas o lado inimigo permanece resistindo cada vez mais. Antes, nos comunicávamos por olhares, mas agora conversamos através de toques que não ocorrem e da pressão existente entre nossos corpos. Chega a ser insuportável todo esse clima de coisas não-ditas, não-feitas, não-sentidas.

Tento perceber se você esconde alguma coisa entre as palavras que trocamos, mas não tenho um manual e você é tão complexo quanto um cálculo matemático. Entre todos esses nossos conflitos individuais, criamos mil e um idiomas próprios, compostos por gestos, sorrisos e esbarrões acidentais. Quem sabe, caso nosso pequeno dicionário um dia seja publicado, eu consiga te traduzir.

FAZ TEMPO

É impossível. Não é normal, não é aceitável, não é nem um pouco justo que você tenha um poder de reação tão grande sobre mim. Você deve ter algum truque, deve fazer de propósito; aposto que você calcula meus horários, meus sentimentos, cada batimento em meu peito para definir quando e como será seu próximo golpe contra minha consciência.

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Mesmo depois de meses, há momentos em que seu rosto aparece em minha memória, como um retrato marcado de uma coisa que um dia foi sinônimo de algo bom (e ainda é). Passei milhões de minutos pensando no seu modo de falar, no seu jeito de sorrir, de andar, de abraçar. Só depois de semanas que reparei na maneira que nossas vidas se esbarraram e em como se afastaram na mesma velocidade. Quando nos conhecemos foi você quem veio chamar minha atenção. Foi você quem buscou olhares, risadas e toques que poderiam ou não ser interessantes. Eu não estava nem um pouco interessada; naquele dia você não passava nem perto dos meus planos, nem era uma possibilidade aberta. E olha no que deu…

Quem diria que depois de dezenas de dias a gente ia se falar de novo e que dessa vez quem iria pensar em correr atrás seria eu mesma (e saiba que quase corri mesmo). Fico pensando em como deixei escapar algo que eu tanto procurava e que estava bem na minha frente. Engraçado como a gente só percebe que a sorte bateu na nossa porta depois que ela resolve ir embora… A gente mudou tanto! Parece que foram décadas, milênios, mas foram apenas cinco meses. E em cinco meses você se transformou na pessoa que acredito ser o amor da minha vida, mas é provável que seja apenas mais um desses amores passageiros que tenho de tempos em tempos.

E o que posso fazer além de esperar e deixar que a eternidade tome conta desse nosso conto? Tenho que aceitar, me render ao destino, ao acaso, talvez te deixar ir, contrariando todas as minhas vontades… Enquanto isso, me contento em sentir aquele frio no estômago engraçado toda vez que leio seu nome, em rir sozinha ao ver alguma foto sua, em suspirar revivendo minhas lembranças. Quem sabe, por descuido ou de propósito, a gente volte a se encontrar.

O QUE ME RESTA

Mato e morro nas minhas rimas, um suicídio ocasional. Me jogo ao acaso, respiro poesia, derrapo nas curvas de cada letra e me estaciono em cada ponto final, apreciando a paz conquistada ou angústia obtida no processo. Escrevo em qualquer lugar: nas sacolas de padaria, nas bordas de uma folha amassada, nas paredes do meu quarto, na minha própria carne. Escrevo porque é tudo que tenho, porque é tudo que sou. Romantizo o meu sufoco pra tentar algum alívio, tudo que eu quero é respirar. Escrevo cada linha com a intenção de que seja a última, fugindo de cada ideia que nasce no fundo do meu ser. Escrevo sobre guerra porque é necessário, escrevo sobre mim porque sou o que conheço melhor (apesar de não tão bem assim), escrevo sobre os outros porque é o que me fascina, escrevo sobre amor porque transbordo, porque é tudo que há. Porque é o que me resta.

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Escrevo no imperativo para tentar escutar a mim mesma e a subjetividade é pra alimentar o que está faminto dentro do meu corpo. Escrevo porque é a única coisa que sei fazer, porque sem isso eu morro afogada, porque não sei gritar se não for através do papel. Desabafo minhas fantasias numa folha em branco passiva, violento-me com cenas e cenários, danço com meu alter-ego e mergulho em um universo sem saída. Nunca encontro o caminho de volta, mesmo tentando incansavelmente. Eu lhe pertenço; quando me perco de mim mesma, minha única chance está ali.

A poesia é que me mantém viva quando me falta o ar: a minha e a dos outros. Principalmente a dos outros. Sou viciada em arte alheia e a minha droga está por todos os cantos. Queria conseguir injetá-la em meu sangue, senti-la correr nas minhas veias, tomando meu corpo, sendo parte de mim. Gosto de me misturar a eles, de ser parte deles, de me autodenominar artista. Com um orgulho rasgado e gritado por aí.

Não tenho rumo, se me vêem nas ruas e pensam que sei o que estou fazendo, estão enganados. Eu não faço ideia. Ando em cada esquina tentando me afirmar, me encontrar, perguntando mais que respondendo. Sei pouco do que quero e muito do que não quero, não sei lidar com a maioria das minhas questões e sou prisioneira dos meus velhos hábitos. Eu sou saudade, sou a dúvida, sou o caos; sou minhas rimas estampadas nos muros da cidade. A arte é o que me resta, a arte é o que me salva.