IDAS E VINDAS COTIDIANAS

Durante essa vida a gente vai e volta, a gente se perde nas nossas decisões, escolhemos entre mil caminhos, nos rebaixamos, nos humilhamos, temos sucesso, fracassamos, comemoramos e brindamos em algum boteco de esquina numa noite de quarta. Nos deixamos levar, controlamos vontades, hesitamos ao som de alguma voz, nos lançamos em direção a algum olhar discreto. Durante essa vida, somos.

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Alguns de nós são pura lógica, outros transbordam emoção. Alguns de nós são bom senso e cautela, outros são delírio e impulso. Conhecemos uns aos outros sem nunca saber se estamos encarando alguém que num futuro próximo se tornará indispensável ou se nem lembraremos seu nome na manhã seguinte. Uns nos complementam, nos preenchem; outros não encaixam e não fazem questão de permanecer.

A gente se rende e se entrega de alma aberta e cometemos o erro de esperarmos sempre algo em troca. Ficamos nus e expostos sob a frieza desse mundo de contatos precipitados sem saber o que fazer a seguir. O toque, a experiência, o conhecimento. A novidade e a loucura, a perda de velhos hábitos e a luta de todo dia. Contra paranoias, contra o resto do mundo, contra nós mesmos. Andamos por aí carregando conosco a possibilidade constante de esbarrar em alguém que faça com que nos sintamos em casa. Lar.

Pessoas vêm e vão, cotidianas, efêmeras. Por vezes, conseguimos segurar o amor em nossas mãos e realmente senti-lo: seu gosto, seu cheiro, sua textura. Com mais frequência do que eu gostaria, ele escapa entre meus dedos, escorrendo por mim até livrar-se completamente, solto, desfeito em partículas que serão provadas por outro qualquer. Escapa por causa de orgulho, de ciúmes, de karma, destino, coincidência.

Às vezes, penso que acreditar que as coisas são do jeito que são simplesmente porque deveriam ser é cair no conformismo. É desistir de lutar, é deixar ir sem tentar. Acontece que lutar nem sempre é a melhor opção: temos que escolher nossas batalhas, aceitar as que já foram perdidas, nos libertar do que nos prende. Satisfação não é sobre atingir o que deseja sempre, mas sobre saber a hora certa de desistir. Saber o momento em que o desgaste afeta mais do que deveria, que o cansaço não vale a pena, que os efeitos colaterais já não são tão positivos.

Tenho que aprender a escutar meus próprios conselhos; a decisão entre correr atrás do que quero e aceitar o fato de que não pertenço, de que não é meu lugar, de que não era pra ser ainda é algo que me atormenta todas as noites antes de dormir. A insônia é testemunha.

CANSADA DE QUEM EU MESMA ESCOLHI SER

Créditos do título para o meu maior amor da música nacional atualmente, Cícero, que fala com uma intensidade descomunal em uma canção: “e diz que só queria descansar de quem a gente mesmo escolheu ser”.

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Eu não sou a pessoa mais interessante do mundo. Não sou do tipo que faz tudo por impulso, que é imprevisível, que possui objetivos de vida completamente alternativos, que vive em paz com a própria identidade sem dar a mínima pra opinião alheia.

Não sou dessas que fala tudo que passa pela cabeça, que é espontânea, leve, que se encaixa e adapta em qualquer lugar, em qualquer grupo, com qualquer pessoa. Não sou tão versátil, não sou tão extensa.

Sou pesada, sou paranóica, sou meio louca. Sou meio torta, detalhista, metódica, pura análise, observação. Na maior parte do tempo, sou o movimento calculado misturado ao individualismo de ser livre para ser o que eu quiser, tomando goles eventuais de impulsos mal pensados. Sou crítica, principalmente comigo mesma, ansiosa, prisioneira das minhas manias de auto avaliação. Sou a sede por mais, a vontade de saber tudo que existe, a curiosidade, o desejo incontrolado. Sou o erro.

Tento ser quem não sou com frequência; adoto características que admiro e me esforço para aderir ao meu modo de vida. Queria ser menos dependente de rótulos, de fórmulas, de definições, da necessidade do controle. Tenho que aprender que não preciso ter medo de perder a direção – quem disse que é algo que devemos evitar? Já escutei uma vez que perder-se também é caminho. Tento me permitir ser, me permitir perder o rumo sempre que posso e tenho que começar a perdê-lo até mesmo nas horas mais proibidas. Sair dos trilhos, largar as rédeas, ser mais acaso, ser mais mudança. Mudar o que incomoda em mim sem deixar de ser eu.

Cícero canta, melodioso: sair de casa, ir para a praia, melhorar tudo que há, conhecer tudo que é. E morrer de rir.

SENHORA INSÔNIA

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São quatro da madrugada e estou no meio de uma daquelas crises chatas onde esqueço quem sou e que deitar no chão frio e permanecer ali pro resto da vida parece ser uma ótima ideia. Estou no meio daquelas crises que a folha em branco parece rir da minha cara dizendo que não sou capaz de escrever um parágrafo sequer de um texto decente. Estou bem no auge de uma daquelas crises onde o sono resolve dar uma volta e não voltar nunca mais, deixando uma perturbadora insônia no lugar e uma série de pensamentos incrivelmente rebeldes que se recusam a me deixar colocá-los no papel, o que eu particularmente acho uma atitude muito egoísta da parte deles. Bom, eu de fato sou uma pessoa egoísta, mas meus pensamentos certamente deveriam saber que isso não é exatamente uma boa coisa e poderiam demonstrar um pouco mais de solidariedade. Afinal, não são eles que passarão o resto da semana com sono por conta dessa maldita insônia que insiste em permanecer.

Essas tais crises estão saindo do controle. Estou pensando em montar uma escala de horários para a próxima vez que elas resolverem aparecer. Teoricamente, sou eu quem deveria controlar minha vida, e não essas malditas dúvidas e incertezas que tanto me atormentam. Quem elas pensam que são para aparecem quando quiserem? A partir de agora, crises apenas nas terças e quintas às quatro da tarde. Quem sabe elas se cansem da rotina e resolvam ir embora de vez. Odeio rotina. Talvez minhas crises odeiem também.