O MUNDO VAI ACABAR AMANHÃ

O mundo vai acabar amanhã e eu não vou fazer mil telefonemas rápidos para o máximo de parentes que eu conseguir. Não vou procurar saber onde estão meus irmãos, não vou correr para o colo da minha mãe, não vou pedir um último conselho ao meu pai. Não vou comer um último pedaço do bolo da minha avó, não vou ouvir uma última piada do meu tio no almoço de família.

O mundo vai acabar amanhã e eu não vou ver meu time ser campeão de qualquer campeonato até lá. Não vou assistir a um último jogo no estádio, sentir toda aquela energia, escutar todos gritando por uma mesma razão.

O mundo vai acabar amanhã e eu não ganhei o título de funcionário do mês. Não realizei nenhum projeto genial, não apareci na televisão. Não dei palestras sobre minha vivência, não fui promovida, não ganhei vinte mil em um mês.

Não vou a nenhum churrasco neste último dia, não vou procurar desesperadamente uma ONG para colaborar, não vou visitar asilos ou creches, não vou comprar uma passagem de última hora para a Europa, Austrália ou Tailândia. Não vou plantar nenhuma árvore.

O mundo vai acabar amanhã e eu não vou encontrar meus amigos para últimos abraços, últimas risadas, últimos momentos. Não tem dessa de dizer, finalmente, tudo que um dia eu quis falar para cada um deles. Não vou fazer um último brinde, não vai haver discurso final nem uma grande comoção.

Não vou fazer nenhuma loucura, praticar bungee jumping, escalar o Everest, surfar no Havaí. Não vou experimentar drogas, me arriscar fazendo roleta russa, deitar no meio da avenida às quatro da manhã. Não vou me embebedar. Não vou à festa alguma.

O mundo vai acabar amanhã e eu não vou me declarar. Não vou morrer de amor, não vou escrever últimos poemas nem mandar mensagens de despedida.

Não vou ver os filmes que eu pretendia nem saber o final daquela série de suspense. Não vou atingir o Nirvana nem fazer uma última reza. Não vou tentar vencer a insônia. Não vou acender um último cigarro.

O mundo vai acabar amanhã e já sabíamos disso há décadas. Acordamos sempre sabendo que a manhã seguinte é o fim de tudo e isso não é grande coisa. Minhas últimas palavras já foram ditas, apesar de que, naquele momento, não pareciam as últimas.

DIAS NUBLADOS

Já é o quarto dia seguido que o tempo está nublado. Eu amo dias nublados: fico nostálgica, leve, feliz, me sinto melhor. Sempre foi o meu tipo de dia preferido e duvido que algum dia deixe de ser.

Ontem, pra variar, eu estava escutando algumas músicas que eu costumava escutar há uns três anos. Coloquei uma playlist antiga pra tocar sem medo, deitei olhando para o teto e deixei que a música me invadisse junto com a nostalgia e com todos os sentimentos que aquelas notas musicais específicas traziam. Pensei em como tanta coisa mudou desde o tempo que deixar de escutar aquelas músicas por um dia era quase um pecado. Nas coisas pequenas e nas grandiosas: comecei a gostar de comida japonesa e de açaí, conheci outro país, viajei com amigos, conheci novas bandas, novas pessoas, novos lugares, aprendi conceitos que eu nunca tinha ouvido falar antes, entendi um pouco mais de política, comecei a ler sobre assuntos que antes não me interessavam, me aproximei de pessoas que me fazem bem, me afastei de outras sem querer, observei meus amigos entrarem e saírem de relacionamentos, me apaixonei umas oito vezes (nenhuma delas deu muito certo, mas isso também depende do que é considerado “dar certo”), passei a ter outro ponto de vista sobre certos assuntos, comecei a escrever dois textos por semana, superei alguns medos e criei outros.

Ri sozinha lembrando de algumas coisas, mas essas mesmas lembranças apertaram meu coração e terminei chorando e querendo reviver tudo aquilo. Lembrei dele e de tudo que sentíamos, de como era bonito, de como era tão suave, puro, de como ele me fez crescer. Lembrei de todas as festas, as noites em claro, de todas as novidades, de todos os choros, de todos os casos, as vergonhas, os orgulhos. Não sinto falta, exatamente, das pessoas, mas sim das memórias. Lembrei de como eu me preocupava por tão pouco e pensei se daqui uns anos eu também olharei para trás e lembrarei de como tudo era mais fácil.

A tendência é essa, ficar mais difícil? Até agora, não consegui definir nenhum padrão para a vida. Altos e baixos inconstantes que não seguem regra alguma, mas acho que é assim mesmo, sem lei. A vida não é definida por uma equação matemática. Tenho que aprender a gostar dessa inconsistência que é viver, essa ideia de não ter certeza de nada.

Nos últimos meses me peguei sentindo algumas coisas que eu nunca imaginei que sentiria. Me peguei aprendendo algumas coisas que, se eu tivesse aprendido antes, evitaria muito problema. Às vezes, eu olho pro céu e penso em tudo isso que guardo dentro de mim. Tudo que nunca foi falado, nunca foi escrito… E deveria ser? Estou saindo da minha zona de conforto lentamente e tudo parece tão novo. Esquisito. Em todos os sentidos, em todas as esferas. Queria ter menos medo. De publicar, de me lançar, de falar (gritar, berrar!), de sentir.

Hoje em dia é tudo um mistério, uma névoa, a dúvida que chega a cada manhã, a euforia de cada madrugada, o estômago revirando, toda a carga, o silêncio, o sigilo, a impossibilidade. Quero gritar, mas só grito por dentro; tenho sede por mais, mas o que tenho é o que me alimenta todos os dias. Aceito.

Disso tudo, concluí algumas coisas. Dentre elas: eu adoro estar apaixonada. Apesar de tudo ou por causa de tudo. É a coisa mais bonita do mundo: amar sem esperar nada em troca, só sentir, sentir, sentir, transbordar dentro de si. Sobre Deus eu tenho minhas dúvidas, mas no amor eu acredito. Acima de qualquer coisa.

CRÔNICA DE FIM DE ROMANCE CLICHÊ

Você deve estar em algum bar do outro lado da cidade, trocando olhares com alguém que não dá a mínima. Na verdade, tanto faz, porque você também não dá a mínima. Você mudou tanto, eu também: agora cada um de nós tomou posições em lados opostos do subúrbio.

São três da manhã. Em ponto. Eu odeio horas exatas porque elas me fazem lembrar de você e de como tudo em você era exato: os horários, as manias, os olhares, as opiniões. Era como se você tivesse tudo guardado dentro de si, todo movimento estritamente calculado, pensado, articulado. Coisa mais irritante. Por dois (exatos) anos eu suportei todas as suas pontualidades, reclamando de cada uma delas (no início elas me faziam rir, mas como todas as coisas, acabaram perdendo a graça) e agora eu sinto falta. Ironia do destino, eu acho. Lição aprendida.

É a quarta noite seguida que tento afogar a saudade em vinho barato. Que droga, hein? De todos os finais que imaginei pra nós dois, esse não era nem de longe um deles. O álcool não tem muita graça quando tiro proveito dele sozinha. A ressaca é mais divertida quando as outras pessoas nos lembram o que aconteceu na noite anterior, mas agora não tenho ninguém pra me lembrar os fatos. E mesmo se tivesse, ainda assim faltariam os próprios fatos. Nada acontece, queria que acontecesse; tudo sempre gira em torno de você, pra variar.

Amanhã vou acordar na cama errada de novo. Os lençóis bagunçados apenas por mim mesma. A cada dia que passa, me culpo mais por não ter tomado a atitude de sair desse maldito apartamento eu mesma, em vez de te colocar pra fora. Cada canto desse lugar tem seu cheiro, sua marca, mas não você propriamente, porque o especialista em largar tudo pela metade não falhou no seu último ato.

A cada vez que você entra de novo para buscar mais uma de suas camisas (que antes eram meus pijamas) é como se deixasse um pedaço seu. Esse lugar é nossa alma fundida, seu cheiro e meu gosto. Juntinhos. Ainda não aceitaram a separação. Parece que você faz de propósito: leva suas coisas devagar, uma de cada vez, só para me torturar a cada vez que você pisa aqui dentro mais uma vez. Pisa não só dentro do apartamento, mas dentro de mim também, sufocando meus órgãos e me deixando sem ar. Tomei a atitude de colocar um de seus moletons escondido embaixo de meu colchão. Não para eu ficar sofrendo, não sou desse tipo. Não encosto nele desde que o coloquei ali. É verão, está quente, a brisa que entra pelas janelas me conforta e me abraça. Guardei-o ali para que, no inverno, eu possa ter uma pequena lembrança do modo com que você me aquecia.

 

EU, ALMA E LÁPIS

Sempre escrevo de madrugada, e, no dia seguinte, ao acordar, nunca me lembro que escrevi na noite anterior. Demoro um bom tempo para recordar que sentei, escrevi, e sobre o quê escrevi. Quando leio meus próprios textos, não me lembro de ter pensado naquelas palavras, naquelas frases: sempre tenho a sensação de que estou lendo textos de outra pessoa.

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Não consigo explicar tal fenômeno; não escrevo sob efeito de drogas ou álcool, sempre estou bem acordada e bem motivada. Tenho a impressão de que algum tipo de força sobrenatural da inspiração desce sobre mim e guia meus dedos sobre o papel ou o teclado, escrevendo as palavras por mim, ditando a pontuação correta, fazendo com que eu repense uma frase ou outra. Rio sozinha quando sinto essa sensação bizarra de que aquele texto nunca sairia de mim, que não poderia ter sido eu, que eu não sou capaz de organizar minhas ideias daquela forma.

Desde quando escrevi meu primeiro livro, aos nove anos de idade, as pessoas ao meu redor (família, amigos próximos) começaram a dizer que eu era “escritora”. Sempre entendi num tom de brincadeira, ou como se estivessem aumentando demais os fatos (e ainda entendo assim). Nunca me considerei, de fato, uma escritora, mas nunca parei de escrever textos, poesias, comentários, qualquer coisa: nunca parei de escrever e ponto. Há algumas semanas, parei para pensar que eu simplesmente fui seguindo o caminho da literatura, sem pensar demais, como se fosse um processo natural. Nunca me questionei “e se eu desenhasse?”, “e se eu decidisse aprender a cantar?” ou “e se eu me dedicasse ao teatro?”, talvez eu possa ter considerado uma dessas coisas como hobby, mas nenhuma delas pareceu tão certa e espontânea a ponto de ser algo que eu sonhasse em fazer profissionalmente. As letras, as palavras, os textos rasurados sempre foram a opção certa pra mim, de uma forma tão genuína que simplesmente aconteceu, não houve nenhum tipo de planejamento ou segundos pensamentos sobre.

Não é algo que faço por escolha ou porque forço todo o processo: escrevo por necessidade. Se vivencio alguma situação e penso demais sobre aquilo, toda a experiência fica dentro de mim, um acúmulo de sentimentos e opiniões que preciso colocar pra fora de alguma forma. Sendo assim, chego a minha casa e vomito tudo no papel, seguindo um instinto que é tão vivo dentro de mim quanto o instinto de caçar dentro de um animal selvagem. É tudo muito violento, muito esgotante, intenso; as horas passam sem que eu perceba, passo madrugadas espancando meus cadernos com sentimentos que transbordam de mim.

Clarice Lispector uma vez disse que, quando não estava escrevendo, sentia-se morta. Nunca me identifiquei tanto com alguma coisa: quando fico um tempo maior sem escrever nada, fico com um constante sentimento de que tem algo faltando, que esqueci algo em casa, que alguma coisa não está certa. Não me sinto completa, me sinto cheia demais, louca demais, sem ar.

Escrever é a paixão da minha vida. Vivo por isso e vivo para isso: meu amor pelo ato de escrever é incondicional. Às vezes, me pego chorando enquanto escrevo um texto qualquer apenas porque me sinto realizada quando coloco tudo aquilo no papel. Sinto-me bem quando consigo organizar meus parágrafos exatamente do jeito que eu queria. O momento em que sento e encaro a folha, sua superfície branca, pronta, desafiante, é um momento extremamente íntimo. É inexplicável: a criatura e seu objetivo, frente a frente, encarando-se numa relação de mutualismo. A folha precisa de mim, eu preciso dela. E assim vivemos. No instante em que começo a escrever o que quer que seja, sinto-me exposta. Ao avesso. Completamente nua e deitada numa superfície fria. Chorando. Rindo. Tremendo. Os cabelos bagunçados e a alma em êxtase, sentindo-me mais viva do que nunca, a energia percorrendo minhas veias como se não houvesse mais nada no mundo. E, naquele momento, não há mesmo.

Aqueles que sonham sabem como é a intensa a vontade de que aquele sonho se torne realidade. Não consigo descrever como me sinto quando algum texto, alguma frase, qualquer coisa de minha autoria é reconhecida, comentada ou provoca qualquer tipo de reação positiva em algum leitor. É tudo que eu quero, e quando acontece com uma pessoa que seja, é incrível. É genial.

A cada dia que passa eu tenho mais certeza de que estou no caminho certo e nasci para isso. Independente de qualquer coisa, eu nunca irei parar de escrever. Como já mencionei, não escrevo por fama, dinheiro, idolatria: escrevo porque preciso. Porque é parte de mim. Qualquer atividade deve ser realizada com paixão, ou não deve ser realizada de nenhuma maneira. Tenho esperança de que um dia meu trabalho será reconhecido e eu conseguirei fazer com que meus leitores sintam-se tocados pelo que escrevo.

E, de qualquer forma, se isto acontecer com apenas uma ou duas pessoas, já me sentirei satisfeita. A jornada terá valido a pena.