DE JOELHOS

Escrevo porque não tenho paz, escrevo porque penso demais e sinto em excesso, uma mente caótica com um sofrimento impaciente que exige minha dor como alimento.


Nas últimas semanas me perdi pelo caminho, não conheço mais quem sou e tenho um medo enorme de te pedir ajuda para me encontrar. Sou uma louca imperdoável cheia de erros e penhascos em mim, sem salvação num universo pequeno onde não posso ser quem sou por falta de espaço. Não caibo nesse mundo nem nessa vida mesquinha com mil clichês e egos inflados.

Minhas palavras são soltas e não possuo sequência lógica (nem mesmo nas segundas a tarde). A rotina é pouco demais pra mim e eu nem sei mais como fugir dessa realidade sufocante que estou inserida, onde minhas alucinações e agonias apertam meus órgãos sem descanso. Estou nua num quarto branco e vazio, deitada no chão com ganchos enfiados nos pulsos, paralisada pela intoxicação; overdose por amar demais, sentir demais; há tanto dentro de mim que não sobra espaço para a circulação do meu sangue. Sinto a melodia da ansiedade apertando meu pescoço através da nostalgia e perco o fôlego por alguns segundos. Meu limite está tão próximo que posso tocá-lo: estico os braços e sinto o formato de sua clavícula prestes a ser pressionada contra meu corpo. Choro e sangro no meu espaço em branco.

Sou uma gaveta bagunçada jogada no meio da estrada implorando de joelhos por carona para qualquer lugar. Não sei lidar com meus próprios átomos, neurônios, minha mente exagerada. Sou demais para mim mesma, eu não aguento: me demito.

UM POEMA SOBRE SAUDADE

Buraco simétrico no peito
aumenta e diminui
dependendo do dia.

Cabeça cheia de momentos vazios
E um sentimento esquisito;
Talvez seja fome.

Escovas de dente sem par
Lençóis frios na direita,
mas a esquerda permanece aquecida.

Nunca mais houve disputa
pelo controle da TV.

TEMPESTADE

Nosso amor se espreme numa cama pequena enquanto o céu empurra o sol para baixo, entre as montanhas, e a lua ocupa seu espaço por direito. Perco-me na imensidão da noite depois da despedida em tons de vermelho e você me encontra num mar de cores e cheiros, dores e cortes, toques e olhares.

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A saudade que sinto e minha curiosidade seca se escondem sob seus braços quentes e justos. A sua respiração choca-se contra minha testa e se dispersa no espaço junto com os pensamentos que não sou capaz de controlar: não me arrependo de nada que não fiz e convivo bem com os demônios que eu mesma criei dentro de mim. A paz que você me proporciona entra em conflito com o caos que carrego dentro da minha mente e eu não suporto a guerra que surge no tempo-espaço.

Meu amor, a gente está sozinho no meio dessa grandeza sem fim. Não pedi para estar aqui e não há saída de emergência, sou obrigada a assistir o espetáculo até o final. Você me responde com um sorriso de melancolia e não procura me consolar. O silêncio é piedoso, mas a tempestade dentro de mim é alta e a insônia é inevitável apesar do ar quente e aconchegante que nos rodeia.

Tenho vontade de me desculpar por sentir demais, mas sentir demais não é exatamente o que me torna quem sou? E quem eu seria se eu me desculpasse por tudo que me faz ser eu? Sei que eu não devo satisfações pra ninguém, mas sou incapaz de lidar com as cobranças que eu mesma faço num ciclo tortura sem fim. As lágrimas forçam meus olhos e transbordo em minha própria existência dentro do seu abraço, querendo descansar de tudo que carrego no meu peito.

Sou o caos, sou a confusão personificada, falo demais e falo menos do que deveria, nunca sei o momento certo. O céu de outono me deixa mais sentimental do que já sou, digo, justificando o que não consigo verbalizar. Seu olhar me deixa confortável para me jogar na liberdade do choro e do soluço, sem amarras. Permito-me sofrer um pouco, sem a dor não sou ninguém, é ela que me move e alimenta minhas páginas em branco nos dias de inspiração. Meu inferno particular se acumula sem que eu perceba e eu me afogo na minha própria bagunça.

Seu contato com minha pele é o que me mantém na superfície, apesar de tudo, sua voz e sua risada são o complemento para o que falta de mim. Somos três no quarto e por um momento sinto paz: eu, você e toda a energia de tudo aquilo que não consigo falar em voz alta.

A SAUDADE É PROPRIEDADE PRIVADA

Há três anos, minha vida era completamente diferente do que é agora. Eu convivia com pessoas diferentes das quais convivo hoje, frequentava lugares diferentes, tinha opiniões que chegam a ser completamente contrárias ao que penso atualmente. Acho interessante reparar no quanto somos capazes de mudar em um intervalo de tempo relativamente curto. Somos tão dependentes dessas mudanças quanto somos dependentes de oxigênio. Renovar-se, revirar-se, descobrir-se.

saudade

A gente vai crescendo e caminhando e as coisas inevitavelmente começam a ficar para trás. Às vezes, deixamos que escapem propositalmente: coisas que nos destruíam por dentro, coisas que nos impediam de evoluir. Livramos-nos de preconceitos, de opiniões destrutivas, de maus hábitos. Algumas nós carregamos conosco, abraçando forte para que nenhum vento leve, tomando todo o cuidado para não deixá-las cair quando tropeçamos. Mas nem tudo é garantia e, sem que a gente queira, deixamos pelo caminho o que nem imaginamos viver sem.

A ausência é um soco no estômago.

Saudade é minha palavra favorita da língua portuguesa. O fato de que é exclusiva do nosso idioma, um sentimento, algo que podemos “estar com”, como se fosse uma velha amiga. Algo que podemos carregar. Abraçar. Envolver. Quase posso tocar as letras quando falo em voz alta.

A gente sente falta de tanta coisa. Sentimos falta de pequenos detalhes, de objetos específicos, de ocasiões, de pessoas, de lugares. Sentimos falta de sentir alguma coisa que nunca sentimos antes (cômico se não fosse meio trágico). Eu sinto falta de ver certos sorrisos. De estar dentro de alguns abraços. De sentir respirações e lágrimas no meu ombro enquanto deslizo os dedos fazendo cafuné naquele cabelo que conheço tanto. De escutar vozes específicas. Nas terças às 16, eu sinto falta de sentir.

A saudade mora na gente sem pagar aluguel, se instala e espeta. Geralmente, fica bem quietinha, calada, no escuro do lar que cria em nosso interior. Resolve acordar de repente, sapateando na sala de jantar, fazendo questão de falar alto “eu ainda estou aqui!”. A minha saudade grita nos domingos à noite, no silêncio do meio da semana, na paz das seis da manhã. Às vezes incomoda, outras, nem tanto. Tem saudade que faz bem, que me faz sorrir sozinha, que me traz um frio bom na barriga. Outras saudades bagunçam e me deixam jogada no canto do quarto sem saber o que fazer com a gaveta revirada na minha mente. As piores, no entanto, são as que me esfaqueiam de dentro pra fora e que me causam tanta dor que chego a ficar sem ar, como se eu tivesse acabado de escorregar e bater minha coluna no degrau de alguma escada pra qualquer lugar. As que não têm remédio, as que fazem com que as memórias invadam minha mente, me deixem inquieta, me matem entre arrepios e lágrimas frias.

A ausência é um soco no estômago.

A agonia de pensar que as melhores coisas da vida são apenas memórias e estão no passado, inalcançáveis, me incomoda da mesma maneira que um pedaço de carne entre meus dentes. É irritante saber que nunca viverei certos dias de novo. Queria pausar a vida em alguns momentos para poder ficar olhando ao redor, degustando o sentimento, pra depois soltar a fita, deixar os meses passarem e num domingo à noite revirar minhas lembranças e dar replay, sentir tudo de novo como se fosse a primeira vez.

Meu alívio é pensar que ainda tenho tanto pra viver, tanto pra descobrir, sentir, falar, pensar, mudar. Eu sou um ciclo e traço minha trajetória sem saber o que vem a seguir. Cada um carrega em si as próprias saudades, as próprias ausências, cada um aprende a lidar do jeito que pode. Cada esquina é um recomeço, mas também nos provoca, nos faz olhar pra trás e reparar bem em tudo que estamos deixando.

Sempre odiei despedidas, mas, apesar de tudo, elas representam o começo de algo novo e fresco. E eu adoro novas oportunidades.

CONTRADIÇÃO

Ele é uma explosão contida dentro de seus jeans rasgados e suas camisetas com frases irônicas. Ele é uma folha de papel limpa, linda, rabiscada com certezas e ideias ilimitadas e criativas. Ele tem seu próprio universo dentro de si, cada galáxia bem montada entre seus órgãos, suas estrelas e buracos negros correndo em suas veias em uma guerra eterna entre o bem e o mal presentes em cada átomo de seu ser.

Ele é voz, ele é grito, ele mantém uma revolução preparada em sua mente e espera pela hora certa de libertá-la por aí. Ele está dez anos adiante de sua geração; pensa grande e atua por meio de pequenas ações. Ele não tem regras (nem limites), apesar de sempre parecer estar jogando uma complicada partida de xadrez contra ele mesmo.

Ele é o James Dean dessa geração, vivendo rápido e de modo intenso. Ele não tem medo de morrer, mas fica assustado com o que pode vir depois: tem medo da incerteza, do improvável, do desconhecido, porque tudo nele contraria a imprecisão.

Seu corpo e mente são pura álgebra, matematicamente intercalados, cúmplices de uma trama bem elaborada. Seus cálculos são equações complicadas e tudo em si exala um certo tipo de simetria surrealista. Ele parece ter sido cuidadosamente projetado por algum arquiteto de alto nível, cada um de seus ângulos parecem se comunicar numa harmonia suave.

Sua alma, no entanto, é a contradição de todo o resto. É a poesia esparramada entre todos seus números, a literatura em confronto com sua matemática, a arte se infiltrando dentro de sua natureza exata. Sua alma é um texto bem escrito com uma pontuação elegante, um poema articulado com versos realistas, a melodia presente entre o ré e o mi.

Eu sou um inverno complicado e jovial, sou tempestades de relâmpagos e raios luminosos, sou o indecifrável céu roxo de outono, uma aurora boreal irreal e bela. Ele, pelo contrário, é verão; confortável e quente. Ele é uma garoa fina, leve, daquelas que trazem uma nostalgia boa.

Entre as idas e vindas de nossas estações tentamos nos intercalar de forma constante, mas nada parece se encaixar do modo desejado. Eu sou lua e ele é o sol, a contradição desenhada em linhas tortas: somos opostos que não se atraem.