A TÊNUE LINHA ENTRE VIVER E DEIXAR QUE VIVAM POR MIM

No fim somos nós.
Sozinhos.
Ou nós e Deus,
ou não há Deus e não há nada;
Posso estar errada.

Vivemos presos a normas e regras que estabelecem como/quando/onde podemos agir/pensar/comer/falar/sorrir/viver. Documentos, papéis: a burocracia que nos limita desde o momento em que nascemos (e até mesmo antes disso) até a hora que morreremos (e até mesmo depois disso). Somos soldados de papel registrados em cartório, presos em rotinas de curto prazo, sonhando baixo.

Fonte: https://www.flickr.com/photos/unchatnoir/6569011997/

Fonte: https://www.flickr.com/photos/unchatnoir/6569011997/


Nascemos e somos criados, pelo menos na maioria dos casos, rodeados por pessoa(s) que se importa(m) pelo menos um pouco com nosso bem estar e nossa saúde. Somos levados a crer que o incomum é a solidão, o silêncio. Tais elementos, no entanto, se mostram muito mais presentes nessa vida do que todo o barulho da nossa zona de conforto. Zona tão pequena no meio dessa imensidão. O ser humano não suporta a ideia de uma solidão melancólica. Crenças para conforto são criadas, inventadas, interpretadas, descobertas para nos dar paz diante da possibilidade de, no fim, sermos apenas nós. Nada mais. O silêncio da atmosfera misturando-se com nosso fraco som esvaindo-se.

Cada um tem seus objetivos e metas. Formar uma família, mudar de cidade, ser bem sucedido na carreira; a intenção é diferente em cada um de nós, que as tomamos de acordo com nossos princípios, nossos exemplos (e muitos repetem exatamente os mesmos erros que os pais cometiam; erros que antes juravam que nunca iriam cometer), nossa perspectiva de mundo, tão minúscula quanto nós, perdidos num planeta azul, pontos invisíveis que pensam que sabem mais que a natureza, tão poderosa e grande. Alguns se acomodam e aceitam seu mínimo conhecimento, sua ignorância perante tudo que há para saber, contentam-se com vidas “comuns”, problemas “comuns” e histórias comuns para deixar de herança. Outros acreditam fielmente que a resposta está apenas nos livros, nas pesquisas, nos números e fatos exatos: passam a vida estudando, escravos da própria sede de saber, da curiosidade indomável. Tornam-se enciclopédias andantes, conversa boa, alma afetada, uma vida que não é feita pra qualquer um, que força os mais fracos aos limites da insanidade, do excesso, do vício, do exagero. Até que ponto a empolgação é saudável antes de virar estupidez? Até que ponto podemos testar nossos limites sem causar danos irreversíveis? Até que ponto é amor e quando passa a ser loucura? Ou será que o amor é, em sua essência, loucura e mais nada?

Não sou (na verdade, não me julgo ser algo que possa ser definido até agora, corrijo: não pretendo ser) nenhum dos tipos anteriores nem me deixar ser presa por qualquer estilo dogmático de vida. Não quero pertencer a ninguém além de mim mesma, o único sobrenome que admito ser anexado ao meu nome é o sobrenome do mundo e da liberdade. Vivo para me encontrar dentro do meu próprio ser, decifrar minha essência e meus elementos. Sempre achei que fosse feita de amor e angústia e todos os produtos da combinação desses dois fatores: minha música, minha saudade, minha sede por vida. Quero viajar e ver paisagens nas quais o homem mal tocou e outras que apresentam o máximo de interferência humana possível; quero conhecer situações de miséria aguda e de riqueza incomparável; quero provar da água mais imunda e da mais limpa. Quero saber o gosto do contraste, sentir até os ossos os extremos que o homem conseguiu alcançar, finalmente compreender por inteiro e ter em minha alma o conhecimento do meu tamanho insignificante dentro da grandiosidade em que vivo. Quero conversar até o amanhecer com pessoas de todos os tipos, de todos os estilos de vida. Pessoas que possuem pontos de vista que nunca passaram por minha cabeça, gente que conhece coisas que eu nem imaginaria. Quero sentir as mais intensas emoções em mim, chorar por todos os motivos existentes e rir por todos eles também (descobrir se, de fato, existe mais motivos para celebrar do que para sofrer). Sentir a vibração de todo tipo de música, fazer amizades ao longo de todos os mares e cidades, me sentir selvagem, ter contato com a natureza de uma forma genuína, abrir meu coração para todo e qualquer tipo de amor e minha mente para todo e qualquer tipo de experiência.

Tenho plena consciência que nunca conseguirei concretizar tudo isso de forma completa, mas quero e pretendo chegar o mais perto disso possível. Tenho uma fome inexplicável por conhecimento e uma curiosidade que nunca vai morrer dentro de mim. Preciso manter o fogo aceso, preciso correr atrás do que acredito, tenho a obrigação de dar uma chance aos meus sonhos, preciso acreditar nisso e em mim: sem isso não sou nada, não existo, não me permito existir, não vivo. Em alguns momentos não caibo dentro de mim mesma, quase explodo, grito, me rasgo por dentro, me destruo e sofro por me prender tanto. Extravaso em lágrimas, desconto no papel de forma violenta, me drogo com notas musicais.

A vida é curta demais, rápida demais e todo mundo parece nos dizer isso sempre, mas nunca nos sentimos atingidos por isso, nunca realmente paramos para pensar sobre, nunca damos a menor importância; mudamos nossos atos por um ou dois dias e voltamos para nossas rotinas, não sabemos lidar, não queremos lidar, ignoramos. Construímos nossos caminhos através de decisões e de coisas que deixamos para trás. Nossa vida é cheia de despedidas que não sabemos que são despedidas, cheias de últimas vezes que não nos avisam ser últimas vezes, cheias de “já volto” que resultam em viagens só de ida, cheias de “conversamos depois”, “mais tarde”, “te respondo daqui alguns dias”, “posso fazer isto em outra oportunidade”. Nossas últimas chances são cruéis, são furtivas e secretas: têm um pacto sagrado de nunca avisar quando virão e, quando chegam, não avisam que chegaram. E sofremos, choramos, morremos sem dizer aquela última palavra que queríamos tanto…

Não somos nada sozinhos. Mesmo que seja nosso destino terminar solitários, mesmo que todo o conjunto de coincidências que nos levam ao nosso momento final pareça nos encaminhar para a solidão, é mais que uma obrigação – é uma necessidade– encontrar pessoas pelo caminho, pessoas que sabemos que estarão conosco quando cairmos, pessoas para as quais podemos contar nossas histórias, pessoas com as quais podemos deixar um pedacinho de nós… Nossa família e nossos amigos (que acabam, eventualmente, sendo parte do que consideramos família também) que ficarão com a missão de nos tornar eternos depois de deixarmos este mundo, espalhando nossas histórias por aí, passando-as para as próximas gerações. Tudo que pretendo ver, sentir, ouvir; tudo que pretendo viver: preciso contar tudo isto para alguém, para mais de um alguém, para os meus maiores confidentes. Apenas assim (e, quem sabe, através de minhas palavras e textos) me eternizarei no mundo, uma tatuagem a mais na crosta terrestre. Parafraseando “Into The Wild”: “A felicidade só é real quando compartilhada”. Apenas vivemos realmente se possuirmos alguém que possa servir como testemunha para os nossos casos.

Nunca vi Deus e nem sei se um dia verei, mas já o senti. Deus não é um homem barbudo todo-poderoso, onipotente, onipresente. Deus não é nada daquilo que os livros sagrados e Instituições dizem. Deus é um sentimento. É aquilo que nos estimula a querer ser algo melhor, mudar para algo melhor. Deus é o que sinto toda vez que escrevo colocando toda minha alma no papel, Deus é o que se personifica em mim através de arrepios e nós na garganta em momentos que não consigo pronunciar nenhuma palavra devido à emoção, Deus é o que está dentro de mim sempre, mas que só se manifesta em situações genuínas e sinceras. Deus não tem cor, não tem sexo, não tem forma, não é descritível, não possui nome, não é palpável, não fala nem comanda o mundo ou nossas ações. Deus existe, sim. Deus não é amor, não é esperança, não é paz, mas sim tudo isso junto e mais um pouco, mais uma quantidade enorme de elementos que não podemos nomear: Deus é energia. Uma energia tão forte, tão poderosa, tão influente. Uma energia que apenas precisa ser liberada em cada um de nós e, quando de fato é, muda nosso jeito de ver o mundo, de ver a vida. Desperta fé.

Não escolhemos quem nos afeta nessa vida, mas escolhemos quem iremos afetar e fazemos a diferença (mesmo que mínima) em toda e qualquer vida que tromba com a nossa em algum momento dessa jornada, por menor que seja o tempo de tal encontro. Nossa existência muda o mundo mesmo sem nossa vontade, mas, se quisermos, pode mudar ainda mais. Para melhor ou pior, a escolha é nossa. Não pedi pra nascer nem sei por quanto tempo viverei, mas sei do que preciso para continuar aqui e sei também em que acredito: no amor (acima de tudo), na existência de uma energia indescritível e, essencialmente, em mim mesma.

TUDO QUE SOU, TUDO QUE TENHO

Os anos passam sem fazer barulho, sem perturbação, numa quietude absurda que nos impede de perceber a corrida infinita do tempo. Os segundos são impacientes e não nos perguntam se precisamos de uma pausa, um momento para processar tudo que está acontecendo e recuperar o fôlego.

Fonte: https://jesleen92.wordpress.com/2012/04/20/she-went-quietly/

Estamos sentados no terraço olhando o nascer do sol num silêncio que está longe de ser desconfortável. O momento é extraordinário por si só, a energia que alimenta o ambiente me faz sorrir de uma maneira quase infantil: fico feliz de estar vivendo minha juventude de uma maneira selvagem e sincera, como deveria ser. Não demoramos a voltar a falar e a confusão que se faz quando uma voz sobrepõe a outra é natural e faz com que eu me sinta em casa.

Na minha memória, os momentos são incontáveis. Os quilômetros corridos regados pelo vento frio no rosto e as músicas mais altas que o barulho do motor, a dança entre as luzes e as multidões, os abraços sinceros em qualquer hora do dia, as conversas alongadas até as oito da manhã do dia seguinte, os jogos, as risadas, os choros, os cafunés e as verdades cruas. Já são anos com as mesmas pessoas que fazem a rotina esgotante valer a pena, que fazem cada dia ficar mais leve e suportável, que fazem cada minuto ser mais agradável. A liberdade, a honestidade, a abertura para falar o que quer que seja com a garantia do respeito mútuo e da compreensão: tudo é tão simples e nu, tão extraordinariamente livre.

Lado a lado, compartilhando o êxtase e a dor, o sofrimento de cada um arde como se fosse o de nós mesmos. Empatia, compaixão: se isso não é exatamente o que caracteriza uma família, estamos perdidos num mundo onde os conceitos devem ser revistos. Escolhemos uns aos outros porque nos completamos, porque temos algo a ensinar e tudo a aprender, porque somos humanos e precisamos nos apoiar naqueles que escolheram ficar.

A família que escolhi me aceita, me conforta, me acolhe e enxuga meu sentimento que transborda. Construo-me através deles e ajudo a construí-los, somos partes de um todo verdadeiro, cada pedaço essencial, coexistimos em alma e corpo. Temos a plena consciência da importância do sentimento que estruturamos durante esses anos, da grandiosidade que atingimos: sou grata por todo o aprendizado.

Sei que todos esses momentos serão memórias um dia, histórias para contar para os filhos e netos. Sei que os dias e as noites passarão, que a vida levará cada um para um caminho próprio e diferente, destinos distantes e diversos. Estar perto, no entanto, não é apenas físico; o sentimento continuará vivo dentro de mim independente da distância em quilômetros que me separa daqueles que me fizeram crescer e ser quem sou. Família, tanto de sangue quanto de alma, é um pedaço de mim que nunca será arrancado: todo o apoio, a ajuda e a presença sentimental são eternos, imutáveis. Foi essa família que me mostrou tudo que é e me ensinou sobre tudo que há: juntos, vimos e vivemos esse mundo como irmãos que brigam e amam simplesmente porque é algo intuitivo, marcado em nós.

Para deixar claro: Em qualquer momento da vida, onde quer que seja, em qualquer estrada; ainda estaremos juntos em espírito e todas as memórias serão meu combustível para prosseguir na caminhada.

CONSIDERAÇÕES SOBRE O AMOR E O ATO DE PRATICÁ-LO

Já quero começar isto tudo pedindo desculpas por eu ser um clichê irreparável, uma romântica exagerada e uma dramática incorrigível. O sentimentalismo é um fardo que carrego sem questionar, fico calada, quieta, aceito a condição.

Fonte: http://igay.ig.com.br/2015-03-05/campanha-pela-diversidade-nos-estados-unidos.html

Difícil é viver num tempo em que o amor é algo subestimado, reduzido a algo de importância mínima, cotidiano e comum. Os poemas sentimentais estão em extinção, as declarações (quando digo “declarações” não quero me referir a nada grandioso. Qualquer frase sincera e carregada de emoção já é válida e extraordinária) são feitas mais por obrigação que por vontade própria e as histórias de amor se resumem a triângulos amorosos previsíveis e chatos.

Devo destacar que não estou aqui para defender o romantismo ou os hábitos piegas tão condenados nos dias de hoje. Antes de tudo, julgo e destroço a teoria de amor estereotipado que gritam por aí, uma verdade absoluta que a maioria concorda e dissemina sem pensar duas vezes, como um dogma religioso: quando o assunto é a relação entre um casal, o amor só pode ser romântico. Discordo, protesto, grito que não. Não existe (e nem deveria existir) apenas o amor romântico. Flores, músicas, jantar a luz de velas: o romantismo é apenas uma categoria, uma vertente dentro de tantas outras existentes nesse universo de possibilidades. Cada um sabe o que sente e como demonstrar tal coisa. Não cabe a ninguém julgar ou regrar o amor alheio e isso nos leva a outro ponto importantíssimo: nenhum tipo de relacionamento deveria ser considerado inferior ou errado, independente da religião, da nacionalidade ou – chocante! – do sexo dos envolvidos. Parafraseando Bukowski, “o amor é tudo aquilo que dissemos que não era”: amar não é algo teórico, é algo prático. Tentar cercar ou limitar o sentimento ditando o que é certo, o que é errado ou o que é válido é um erro enorme (e mata!). O amor não tem regras, mandamentos nem manual de instruções. Cabe apenas a mim decidir como e quem vou amar, me envolver e me dedicar: ninguém dita como devo lidar com meu sentimentalismo nem com quem devo exercê-lo.

A verdade é que tudo que há é simples e objetivo: as pessoas é que complicam tudo impondo tantas limitações. O amor é justo, certo e, principalmente, livre. É a força que rege este mundo e é o que nos mantém vivos, superior a qualquer fobia. Acima de qualquer outra crença, eu acredito no Amor com A maiúsculo: qualquer forma, qualquer categoria, nos pequenos atos, nos mínimos detalhes. Acredito em sua natureza própria e em sua constante luta para manter-se vivo em uma época em que tudo e todos parecem estar tentando assassiná-lo.

ELA(S)

Ela é um grito melodioso e surpreendente no meio de um silêncio impenetrável. Ela é barulho, tempestade e trovoadas.

Ela é um plural singularizado, uma roupa que, com peças separadas, parece incorreta, mas o conjunto não poderia estar mais certo. Ela é um infinito “por quê?”, cheia de curvas fechadas e manobras difíceis.

Fonte: via tumblr

Seus olhos são como duas galáxias distintas, mas que possuem uma sincronia tremenda. Seu olhar é como a fusão de dois universos, capaz de sugar qualquer um para dentro de si própria. Seus lábios são fronteiras de segurança máxima que apenas os que fazem por merecer ganham o direito de conhecê-los. Sua voz é suave e traiçoeira, talvez um pouco superestimada, mas possui uma melodia inegável. Seu corpo é uma empresa cuja qual ela possui total controle: seus movimentos são calculados e espertos, e ela é dona de cada centímetro de pele que possui. Seu sorriso é encantador e, quando verdadeiro, pode iluminar um bairro inteiro.

Sua alma ninguém nunca conheceu o suficiente para escrever a história. Uma, duas linhas no máximo: é um mistério quase completo. Ela em si é contida, porém possui uma aura capaz de arrepiar até os mais insensíveis.

Sua confiança e poder são notáveis, por mais que ela tente escondê-los com a modéstia. A mente é agitada e ilimitável, sempre a procura de algo mais. Suas ideias surgem tão rapidamente quanto vão embora, e o barulho provocado pelo seu cérebro pode ser escutado do outro lado da rua.

A maioria das pessoas é incapaz de entender a complexidade que a menina possui dentro de si. Quase ninguém lhe lança um segundo olhar mais cuidadoso. Mas quem para pra reparar… pode ganhar um daqueles sorrisos que mencionei acima e, quem sabe, um lugar especial na vida dela.

Ela é só mais uma, mas não é só mais uma. É uma metáfora sem fim, inexplicável, indecifrável e inquestionável. O tipo de pessoa que faz com que os escritores percam seu tempo para fazer poesias que tentam envolver tudo que ela é. Mas é impossível: ela possui a poesia em si, mas não possui a tradução; Ela é um verbo intransitível: ela apenas é.

OUTONO

A estação mudou e o olhar também, o tom azul do céu já está se esvaindo, a cor cinza pede licença e entra disfarçadamente na cidade adormecida. Em três meses se passaram cinco anos (ou mais), o tempo é traiçoeiro e nos ilude mais do que qualquer amor adolescente.

Fonte: http://inferninhoooo.blogspot.com.br/2011/05/quem-sabe-o-que-e-ter-e-perder-alguem.html

Fonte: http://inferninhoooo.blogspot.com.br/2011/05/quem-sabe-o-que-e-ter-e-perder-alguem.html

Sentado no meio fio você deseja mudanças ao mesmo tempo que as evita; sua vida é composta por paradoxos complicados. Os carros passam – mas a saudade não. A busca por um momento (mínimo que seja) em que nada mais importa é tão infinita que talvez passem todos os anos da sua vida e mesmo assim você não consiga obtê-lo. Uma pena, talvez, ou não. Às vezes o sofrimento é necessário e deve não só ser sentido, mas ser valorizado, admirado, idolatrado quem sabe. Isso passa, tenha certeza. Do mesmo modo que os carros, um dia ou outro isso vai, o tempo se encarrega de vir buscar toda essa saudade. As gotas de chuva deixam de ser afiadas e passam a acariciar a pele, como cócegas gentis. Os cantos da sua boca aos poucos serão puxados por barbantes invisíveis e a sensação é incrível. Quer saber? Tudo vale a pena. Arrependimentos são inúteis. Pra quê querer mudar o que já foi? Melhor aceitar. Melhor pensar que, sem aquilo, você não seria o que é hoje. Nós somos formados pelo conjunto de ações e reações que fazemos e provocamos no mundo. Cada célula do nosso corpo é uma experiência pela qual passamos. Eu, particularmente, não mudaria nenhuma das minhas células; aprendi a ter uma boa convivência com minhas memórias.

GERAÇÃO “SALVEM-OS-HUMANOS”

Antes de nós reinava a geração Coca-Cola. E somos o quê? Devemos ser a geração Red Bull. Ou a geração McDonalds. A opção mais provável seria a geração Whatsapp. É meio deprimente; poderíamos ser a geração politicamente-participativa, a geração salvem-as-baleias, a geração mais-amor. Poderíamos tentar orgulhar o mundo. Poderíamos nos diferenciar das gerações passadas, fazendo mais. (Ainda podemos, aliás).

Fonte: http://lavidaesdelocos.tumblr.com/

Fonte: http://lavidaesdelocos.tumblr.com/

A minha geração é caracterizada por jovens que passam horas pensando em uma legenda para alguma foto. É composta por pessoas que não revelam fotografias há anos por falta de tempo, vontade ou necessidade. É vista como a geração das hashtags, das fofocas inventadas, dos jovens que gastam dinheiro em camisas de bandas que nem mesmo escutam. É a geração das declarações de amor pelo Facebook por medo de falarem em voz alta.

Os garotos dessa geração gastam centenas em camisas e sapatos de marca para tirarem fotos supostamente espontâneas como se o objetivo não fosse mostrar os bens materiais. Os bonés (idênticos) amassam sempre o cabelo bem cortado. Escolhem a dedo a cueca antes de sair e deixam a bermuda propositalmente larga para se mostrarem metodicamente desleixados e exibirem, novamente, o valor material até mesmo de suas roupas íntimas. Em uma festa de 200 convidados existe apenas um corte de cabelo nos homens e as mulheres observam, selecionando um entre tantos iguais. Os olhares são os mesmos de sempre, o modo de puxar conversa também. Ninguém parece se cansar disso tudo.

Somos a geração do “olhe para mim! Estou me divertindo!”. Passamos menos tempo de fato aproveitando cada ocasião e mais tempo tirando fotos; não para registrar momentos, mas sim com a intenção de mostrar ao resto do mundo que estamos muito felizes, obrigado, estou tendo uma noite sensacional. A regra mundial é que a qualidade do momento é inversamente proporcional ao número de fotos tiradas durante ele.

É insano. Talvez isso seja uma coisa geral que existe desde o início dos tempos, talvez não: estamos sempre querendo nos auto-afirmar. “Eu sou isso”, “eu sou aquilo”, “olhe como sou assim!”. Queremos provar que temos um estilo definido, uma opinião bem formada, uma personalidade decidida. Não somos; somos jovens, inconsequentes, mudamos de opinião com quase a mesma frequência em que mudamos nossa roupa. Nunca reconhecemos as nossas próprias divergências por puro orgulho.

Sei que me aplico, particularmente, em diversos itens que eu mesma critico nesse texto. Não me excluo e duvido muito da minha capacidade de mudar tais defeitos em um período curto de tempo. Às vezes os cometo de forma inconsciente simplesmente porque fazem parte de mim. Um dia, talvez, eu consiga corrigi-los – talvez sejam apenas elementos da própria juventude. Mas de uma coisa eu sei: eu particularmente me preocupo com a salvação das baleias. Espero que minha perspectiva de querer mudar o mundo compense os efeitos de alguns dos meus erros frequentes.

ESCREVO (E TALVEZ EU SAIBA O POR QUÊ)

Às vezes me pego perguntando à mim mesma por que diabos escrevo. Quero dizer, algumas pessoas cantam, tocam algum instrumento, desenham ou praticam algum esporte, e eu escrevo. E, diabos, poderia ter escolhido qualquer outra coisa para me dedicar, mas escrevo. Escrevo, e coloco minha alma nisso, fico nua e exposta, me lanço da janela do décimo primeiro andar de um prédio qualquer e caio no asfalto com um baque surdo e rápido, um instante em meio a tantos outros.

Fonte: http://chacomcupcakes.com/?p=5785

Escrever é isso. É o momento entre o início da queda e o impacto final. E eu escrevo, porque a sensação é inegavelmente incrível, de um jeito meio perturbador. Escrevo porque gosto daquele sentimento embolado que se instala no peito e de tempos em tempos resolve subir pela garganta para nos encher de nostalgia. Escrevo porque penso demais, e minha alma implora para ser descarregada, para tirar todo aquele peso das costas de alguma maneira. Escrevo porque sou obcecada pelo desenho das letras e pela dança que a caneta faz enquanto caminha sobre o papel. Escrevo numa tola tentativa de chamar atenção, de ser ouvida, de fazer com que as minhas palavras, de alguma forma, mudem as pessoas e, consequentemente, o mundo.

Escrevo tentando desembolar essa coisa confusa que chamo de pensamentos, fazendo escorrer uma cachoeira de ideias pela caneta, tentando organizá-las em frases e parágrafos. Eu sei, é inútil na maioria das vezes, e tudo continua tão confuso quanto estava antes, mas eu gosto. Eu gosto de mudar o caos de forma, de deixá-lo num jeito igualmente caótico porém diferente. Porque mudanças são totalmente bem vindas, e escrever é modificar incansavelmente. Escrever é irritar-se, é descabelar-se e jogar a caneta para o lado com ódio daquela cor irritante que é o branco do papel. Escrever é um Grande Talvez. É uma rede de possibilidades e de grandes escolhas, como perguntar a si mesmo onde colocar aquela vírgula teimosa ou se certa palavra seria melhor naquela frase. Escrever é se manter em movimento e colocar a mente para trabalhar o tempo todo, sempre observando os mínimos detalhes que nos cercam, pois até mesmo aquele irritante fio solto de uma blusa pode tornar-se inspiração para um texto complexo e cheio de questões profundas sobre algum assunto repleto de filosofias complicadas.

De qualquer maneira, é isso. Escrevo, sim, porque faz com que eu me sinta viva. Porque, enquanto escrevo, sou eu quem comando o texto. Sou eu quem decido quais palavras usar, como organizá-las e como usar as vírgulas e pontos. Escrever é ser, por alguns breves minutos, dono do universo – e se o mundo fosse tão fácil de controlar como um texto, creio que, se colocado nas mãos da pessoa certa, poderíamos estar vivendo num lugar muito melhor. E essa é a razão pela qual escrevo.