QUASE

cestinha-bike
Hoje de manhã, quase peguei minha bicicleta e pedalei inconsequentemente até a sua rua e bati o dedo no interfone do terceiro andar e ouvi a sua voz marejada de sono (talvez ressaca) e pedi desesperadamente pra subir te deixando preocupada com a urgência. E aí eu quase subi as escadas correndo – tropecei duas ou três vezes e meu coração quase explodiu no peito não só pelo medo de arrebentar todos os dentes em um degrau mas também pela perspectiva de te ver toda descabelada logo ao acordar – e entrei no seu apartamento com total disposição para derrubar a porta caso ela não estivesse um pouquinho aberta me convidando a entrar. Quase pensei meia vez antes de te roubar um beijo e ouvir seu respirar cansado, sem te dar tempo de dizer nada, e aí quando quase descolei sua boca da minha eu disparei a falar sobre o quanto você é a poesia dos meus dias num tom de drama mexicano que quase te fez rir. Quase me declarei pra você em francês pra te impressionar, quase te escrevi um livro de um milhão de páginas preenchidas com os vários motivos que te fazem ser especial demais pra esse mundo, quase peguei seu violão pra tocar uma música do Rubel e te dizer pra sentar do meu lado, tirar logo a roupa, sem precisar conversar.

Eu juro que quase te matei esmagada num abraço e ri das suas pupilas dilatadas, te deixando sem graça. Quase confessei que fiz uma playlist das músicas que me fazem pensar em você, que, feito adolescente, escrevo poemas de amor na última folha dos meus cadernos que nunca pretendo te mostrar, que tenho inveja dos cigarros que você acende toda vez que se despede de mim porque eu queria, como eles, queimar na sua boca morna até me desfazer em pó. Eu quase te disse que naquele dia que vimos o sol nascer eu mal consegui prestar atenção no céu que tanto me cativa porque você me distraía e eu quase te contei todos os segredos que guardo no peito, inclusive os sobre você.

Quase.

EM UMA CASCA DE NOZ

A arte é incapaz de imitar a vida
porque a linguagem é falha
e nem a música nem a matemática conseguem explicar o que eu sinto
ao enxergar aquele rosto no meio da multidão,
ao sustentar aquele olhar durante o café da manhã,
ou ao pisar em um lugar completamente desconhecido e me sentir em casa.
Há alguma coisa entre o instintivo e o calculado
entre a fé e a ciência
que ninguém sabe ainda como traduzir,
embora os poetas passem madrugadas tentando
e os profetas os observem, calados.
Mesmo que os físicos já tenham descoberto o caminho para a lua
ainda não se sabe muito sobre os buracos negros
e dentro de mim circulam as mesmas partículas que circulam por lá
há anos luz de distância.
Eu sei que sou feita dos mesmos átomos que galáxias desconhecidas
e a pessoa que senta ao meu lado no ônibus
é feita dos mesmos átomos que eu,
então como podemos nos sentir tão
inevitavelmente sozinhos e pequenos?
Entre todos os mundos
entre todos os tempos
e entre todos os universos paralelos
nos encontramos neste.
Agora.
E embora a minha arte seja incapaz de dizer
sobre toda a verdade que há em mim nesse momento
de alguma forma inexplicável,
consigo sentir meu coração sincronizado com os de quem me escuta
e peço que me escutem
peço que escutem meus batimentos cardíacos
e toda a gratidão contida neles.
Porque mesmo não sendo nada,
hoje
sinto como se carregasse o universo inteiro
dentro de mim.

fireeee

BLOQUEIO CRIATIVO

Eu olho para o espelho e tudo que vejo é o vazio. A falta não só do meu rosto e do meu corpo, que deveriam estar ali me encarando de volta, mas de tudo ao redor. Só vejo o cinza, monocromático, sólido, a mistura entre a ausência total e a presença completa, um meio termo agoniante.

cinza

Embora eu não consiga compreender, talvez tenha a ver com o fato de que eu sinto como se, em algum momento dos últimos meses, eu tenha entrado em uma rua sem saída sem conseguir dar meia volta e ir embora. Estou encarando a mesma parede há semanas, em inércia, paralisada pela quantidade de verdade que simplesmente não consigo carregar.

(Não há nada mais doloroso que o autoconhecimento).

A sobriedade parece difícil, quase tão difícil quando encarar o papel vazio e perceber que não há nada para ser colocado ali. Que me falta vida, que me falta gente. O cotidiano me faz falta; as voltas de ônibus pela cidade, o barulho alto do centro, a falta de paz. A falta de paz é o que motiva a arte e o meu problema é que ao meu redor tudo é pacífico demais enquanto um caos incontrolado se instala aqui dentro porque eu percebo que perdi a capacidade de me traduzir. Estou presa em mim mesma, vivendo de novo todas as sensações, os sentimentos, pensando nas mesmas frases e nas mesmas lembranças.

Se a poesia se recusa a vir conscientemente, o que me resta é a esperança de que num futuro próximo o irracional traga alguma cor pra superfície. O cinza já não basta, já não renova, não surpreende. O cinza não tira o fôlego da maneira com que encontrar aquele bilhete o faz, mas eu cansei também de velhas caligrafias. O sangue que corre nas minhas veias é cinza feito cimento e eu só quero me avermelhar.

365 VEZES

Eu era na minha totalidade intensa um tom de azul-escuro que se misturava com o céu da noite quando você chegou com uma cor alaranjada de pôr do sol. Deixou seus cigarros na janela e espalhou as cinzas pela cozinha enquanto eu repousava meu olhar nos seus ombros cansados e misturava um pouco de mim no jeito teu.

ciclos lunares
Aos poucos tudo foi deixando de ser madrugada e crepúsculo para transfigurar em algum meio termo. Nada nunca mais foi o mesmo, afinal. Nem as músicas do Rubel, nem o jeito de contar casos, nem a ordem de arrumar a casa. Nem os livros de poesia rabiscados com anotações angustiantes das insônias, nem os sonhos que se seguiam dessa rotina.

Tudo moveu-se, lá fora e aqui dentro, de forma tão sutil. Como quando perde-se o fôlego e só há a percepção de que a respiração havia sido interrompida quando ela volta a funcionar normalmente.
O mundo girou 365 voltas e eu vi 365 versões diferentes de mim. Me reinventei. Você fez o mesmo, 365 vezes.

Prestei atenção nos olhos castanhos que já não são castanhos como antes e no tom de voz que já não tem o mesmo timbre. Naquele momento em que eu te olhei distante em qualquer esquina eu percebi: foi a minha antiga existência que havia se apaixonado por alguém que igualmente já não existe.

Dei meia volta na mesma rua com a certeza de que nada podemos fazer senão seguir morrendo e renascendo a cada encontro com outra alma humana. Cíclicos e efêmeros.

CONVERSA DE VÓ

-Ah, engole esse medo. Senta um pouco no escuro, menino. Vai pensar na vida, entendeu? Pensar mesmo. No que você quer viver. Nas pessoas que conheceu e no que elas te ensinaram. Teve uma vez no ônibus que a menina do meu lado tava me dizendo como é que se lê poesia. Eu te contei que sempre gostei de ouvir poesia? Acho que é dom, ou você nasce sabendo ou não sabe. Eu nunca soube, não. Mas ela até que tentou me ensinar. Leu uma pra mim, falava sobre flores mortas. Era uma coisa bonita e você me conhece, pra falar que é bonito eu tenho que achar bonito mesmo. Mas é isso, menino. Presta atenção, entendeu? Nas coisas ao redor. Nos caminhos, nas árvores, nas pessoas que te esbarram na rua. Elas carregam muita história. Tenta compartilhar a bagagem, isso enriquece a gente e até faz bem pra memória. Minha memória já tá ficando um pouco ruim, não consigo me lembrar muito bem da aparência das coisas. Isso é triste, não lembrar de como era o lugar de onde a gente veio ou o rosto das pessoas que já fizeram parte da nossa vida. Ah, tira foto. Muita foto, menino, depois revela e guarda numa gaveta. Eu queria saber pintar só pra pintar todas as coisas que eu já vi. Foi muita coisa boa e muita coisa ruim. Dá pra ter muito dos dois lados, acho que um dia você vai saber do que eu tô falando. Mas não agora, tá cedo demais. Mas tá tarde também. Não sei, não, o tempo é tão cruel quanto o mundo, menino.

maosenrrugadas

-Se eu queria que fosse diferente? Eu não queria nada. Eu acho assim, ó: eu fui do jeito que fui. Você é que tem que ser melhor porque é pra isso que a gente faz filho, faz neto, né? Não concorda com tudo que eu falo e nem escuta muito conselho. Eu falo é muita bobagem. Mas é que é tão pouco tempo e tanta coisa, tanta coisa! Queria eu poder te ensinar todas. Mas a gente é teimoso, só descobre sozinho, não adianta… Você vai descobrir que a tristeza é importante, menino. A solidão também. A gente aprende a se entender, se suportar. Passei a vida fugindo não sei do quê e hoje eu tô aqui sentada dentro de mim mesma. A perna não funciona. Aqui de dentro eu ainda penso em voar, mas imagina…

-Eu amei tanto. Se a gente pudesse voar eu acho que seria a mesma sensação de amar. Já amou, menino? Já sei que vai demorar pra você parar com essa mania besta de fingir que não sente. É a coisa mais linda. Mas já aviso: ama com desapego. As pessoas vão embora, morrem, a gente fica sozinho, aquilo que eu tava falando antes. Eu só aprendi agora, vê se aprende mais cedo que eu, viu? Vai sofrer menos. E larga esse cigarro que não é bonito, que você nem precisa. Vai ser artista sem isso. Um artista daqueles que tiram o fôlego da gente. Lê uma poesia pra mim, vai. Daquelas bonitas.

O SER E O NADA

A vida é uma espera. Pela morte, por amores inacabados, por palavras que não virão. Uma pausa entre duas eternidades de inexistência, a concretização de um corpo num período breve que logo transformará o mesmo corpo em partículas que voltarão ao imenso universo ao qual pertence realmente.

ser e nada

E vagamos fingindo rumos que não passam de uma forma de ocupar o tempo enquanto aguardamos o final inevitável do capítulo (a história inteira é mais ampla que esse breve intervalo terreno). Porque a morte é um porto e nós somos barcos obedientes, atando e desatando nós por nossas várias cordas no percurso longo, trombando uns com os outros, calculando encontros e desencontros. Nós somos Colombo indo em direção ao precipício do desconhecido.

A passagem desse pensamento dá uma agonia invencível e fazemos papel de ignorantes, como se não soubéssemos de nada disso, nos preenchendo com objetivos curtos, médios, longos. Idealizando tudo. A arte de planejar nos é natural porque sem ela morreríamos por vivenciar demais a verdade; o tédio é a pior parte do ócio porque nos permite entender o que nos espera.

Sou dessas pessoas que passa as horas antes de dormir pensando no que vou deixar no mundo quando meu corpo já estiver se desfazendo e minha mente deixar de funcionar. De todos os inventores e pensadores, de todos os inventos e pensamentos, de todas as revoluções e literaturas, que há de novo para se pensar, criar ou escrever? Que há de ser marcante o suficiente para ser conhecido e estudado por dois, três, quatro séculos?

No fundo, há uma voz que me diz: nada. Porque se somos barcos e a morte é um porto, a vida é o mar. Nunca o mesmo. E, embora as ondas mais grandiosas consigam, por vezes, cobrir a costa e nos deixar incrédulos com tamanho poder, elas desabam e desaparecem numa imensidão homogênea e azul.

Até mesmo os vestígios de quadros feitos um dia desbotam.

NATUREZA SELVAGEM

Aqui em mim nasce uma coragem que rasga. Uma coragem que morde, rosna e quer matar. Que grita: estou pronta. Eu a deixo crescer, mas não a alimento. Ela que se alimenta de mim. Arranca meus órgãos e queima como quem diz que vive e vai chegar onde quer. Nem meus pensamentos atordoados ou meus medos irracionais conseguem impedir uma ação tão espontânea.

Desconfio: estou em combustão.

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As minhas certezas se transfiguram em outras que contrariam as de origem, os meus sonhos tomam forma e honestidade, peço que me abram uma avenida antes de conseguir impedir minha língua de desenhar a frase no céu da boca. Já não estou no comando de mim mesma. O meu coração é insubordinado e minh’alma não sabe de obedecer.

Hoje, a guerra é minha. Porque há dentro de mim um animal selvagem que ronda meu subconsciente tornando-o igualmente indominável.

Passiva, observo de dentro enquanto o externo de mim grita pro mundo: estou aqui e vou lutar.